Crítica: peça “Ignorância”, do grupo Quatroloscinco, denuncia estado de violência das relações

“Édipo não sabia que dormia com a própria mãe e, no entanto, quando compreendeu o que tinha acontecido, não se sentiu inocente. Não pôde suportar a visão da infelicidade provocada por sua ignorância, furou os olhos e, cego, deixou Tebas. (…) O homem é responsável pela própria ignorância.” Milan Kundera

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Dividida em esquetes, a peça “Ignorância”, do grupo Quatroloscinco, também partilha seus integrantes, tendo Assis Benevenuto e Marcos Coletta a cargo do texto correto e da segura direção, e Italo Laureano e Rejane Faria na atuação, com performances dignas de aplausos. A linguagem buscada é a da representação marcada, antinatural. Encenado pela primeira vez em 2015 o espetáculo aborda situações contemporâneas de olho na origem, ao que parece ser seu grande trunfo. A cenografia de Eduardo Andrade e Cristiano Cezarino interfere, com méritos, diretamente na montagem. A iluminação de Rodrigo Marçal também dá seus recados. Já o figurino proposto por Lira Ribas cumpre a função de igualar os atores no palco. A trilha sonora do “Barulhista” causa o incômodo pertinente.

As cenas que se desenvolvem entre a introdução e o fechamento da peça se destacam no conjunto da obra. Na primeira delas a originalidade na distribuição das representações tem algo a nos dizer sobre os papéis sociais desempenhados, e evoca, ainda, sem o caráter da cópia ou repetição, os ecos de “Deus da Carnificina”, da dramaturga Yasmina Reza levada ao cinema, em 2011, pelo diretor Roman Polanski. Na segunda, a comicidade alivia a violência do diálogo. De tom predominantemente sarcástico, o enredo busca denunciar, em suma, esse estado de violência das relações, disfarçado pela aura da civilidade e do ato, quase constante, de “lavar as mãos”; a trágica indiferença.