O criador de cobras

“Se a natureza não é contra nós, também não é por nós.” Herman Melville

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Quando o especialista o avisou do fato não pôde conter as estribeiras. Teve vontade de arremessá-lo pela janela ou mesmo dentro da gaiola que guardava o animal. Cuidava daquela cobra desde os primeiros meses de vida, quando os dentes não eram tão visíveis e a coloração ainda se restringia ao amarelo ocre da placenta, o amarelo carente de sangue, mais próximo da morte que são os estreantes dias de qualquer ser vivo do que da existência madura. Com o passar dos anos estabeleceu massa, espessura, densidade e vícios. Atendia pelo nome sem demonstrar afeto. E era essa a principal teoria do especialista.

A cobra não desenvolve afeto por seu criador nem após anos de convívio. Incapaz, mesmo se quisesse, de amar, sofrer, ter consternação ou melancolia. Passam longe de sua rotina a angústia do vazio, da vida, tão comum aos homens, absortos em seus pensamentos quando as questões básicas de sobrevivência se estão resolvidas. A cobra não olha o homem como este, em muitos casos, para Deus. No que colide este paradoxo. Embora visível, tocável, de carne, osso, peles e braços, o criador da cobra não passa para ela nunca de um alvo no seu radar. Enquanto para o homem o invisível é perfeitamente passível de amar, embora desfeito de pernas e braços e peles.