Dezoito de julho

“Era impossível imaginar como seria a cara lambuzada de cores, a espessa crosta de pó-de-arroz com dois remendos de carmim nas bochechas, as pestanas postiças, as sobrancelhas e pálpebras que pareciam pintadas com tição, e os lábios aumentados com um verniz de chocolate. Mas nem os trapos nem as tinturas eram suficientes para dissimular seu gênio: o nariz altivo, as sobrancelhas encontradas, os lábios intensos. Pensei: Um meigo touro de briga.” Gabriel García Márquez

In-Bed-The-Kiss-by-Henri-de-Toulouse-Lautrec

Abriu os olhos sem imaginar o que a esperava. Lia num papel creme as pregressas palavras. A pele morena de índia sadia espreguiçou-se silenciosa e saliente, enquanto o bocejo incontido soava irreprimível. O instante do despertar obedecia a esta rotina, agora quebrada, onde a herança japonesa recebia os primeiros raios de sol numa manhã quente e poucas vezes nublada. Esticado e puxadinho, como o sentido da visão, lhe estava, sobre os cabelos embaralhados, o gato. Estes traziam nos caracóis o charme de negras anjinhas, qual feiticeiras de invisíveis auréolas. As sobrancelhas, motivo de orgulho em prol da apuração ao delineá-las, em cima mantinham-se de finos e agitados cílios, delicados quanto borboletas em alvoroço. Metáfora semelhante poderia ser aplicada ao comportamento das duas cachorras, a primeira estando com o “delicada”, e a segunda, “alvoroço”.

Um a um aos nomes foram chamados, afinal se tratavam de membros da família e companheiros de sono inescapáveis. Rei de Espanha; o gato, Rainha dos Mares; a delicada, e Princesa do Oceano; a “em alvoroço”, atenderam cada qual à única e singular maneira de se portar frente a acontecimentos dessa natureza. Personalidades distintas sorriam plenas num momento de beijos, latidos, miaus e abraços. Apenas o coelho, de alcunha Leite Morno, dono de orelhas mescladas, inquieto focinho e patas impacientes, enviava o guincho à distância. Foi preciso se desvencilhar do afago de seus bichinhos para persistir no enigma. Pousada sobre si uma carta escrita à mão começava falando, após uma “pequena” introdução, a respeito de misteriosa caixa a seus pés. Antes, porém, reconhecera na capa a proteger tais folhas a própria fotografia, ao lado de outro do qual era possível sentir as mãos, tocar o cheiro, ouvir os olhos e o coração.