O Teto

“Num grão de areia ver um mundo
Na flor silvestre a celeste amplidão
Segura o infinito em sua mão
E a eternidade num segundo.” William Blake

agony-gorky

O sangue coagulado estava no teto, e continuava gotejando. Preso, duro, guardado, entregue às paredes do teto, era inexplicável que aquele sangue coagulado continuasse gotejando. Miriam está no chão. Atônita, não é capaz de chorar pela morte do irmão. Experimenta, ainda neste momento, dias após o enterro, uma sensação de incredulidade. Embora soubesse, desde o princípio, que o irmão estava fadado à morte, que esta morte viria, cedo ou tarde, e veio, de fato, mais tarde do que se esperava. Mas agora, neste momento, o sangue coagulado no teto continua gotejando. E Miriam está no chão. Atônita. Não é capaz de chorar a morte do irmão. Experimenta o sentimento de incredulidade.

O sangue não jorra. Ele segue lentamente gotejando. E Miriam está no chão, incapaz de aliviar esse sentimento através das lágrimas, que lhe escavariam os pulmões e, talvez, remotamente, essa possibilidade a salvaria da asfixia em que se encontra. Miriam está no chão, mas não está deitada. A impressão que se tem é que ali a jogaram. E talvez, não remotamente, esteja morta. Não é possível ouvir o som de sua respiração. Os olhos abertos estão roxos e inchados, com leves manchas amareladas, como as de um natimorto. É uma imagem desesperadora. Os braços estão abertos como os de um Cristo, e dos pregos de suas mãos o sangue jorra. O sangue no teto coagulado continua gotejando.