História do suicídio de uma anja sem motivo aparente

“Arcanjo domesticado
em pleno gesto das doze,
de plumas e rouxinóis
finge uma cólera doce.” García Lorca

the-concert-1957

Não havia motivo aparente. A carta era apenas um ponto final. Com o canivete escrevera as duas histórias: a da morte e a da despedida. Uma cravara na carne, a outra num papel qualquer. Quando a encontraram a sua imagem era de transparência. Uma ausência que só a morte concede. Não havia mais os traços de turbulência em sua face, a rubra coloração, que lhe garantia perante os outros uma extrema vitalidade, agora descansava. Tudo era repouso e silêncio. Como se finalmente estivesse integrada ao mundo perante a sua inexistência aos olhos humanos. Os seios que sempre foram a marca de sua inquietude, pois a representavam tanto para si quanto para os outros, esbaforidos e impacientes como pombas que desejavam escapar de uma gaiola, eram agora uma sombra condensada ao corpo, parado, imóvel, sem guardar mais nenhum desejo nem nenhuma aflição.

A turbulência restava na carta. Apenas um ponto final. Ela que em toda vida particularizara-se por hipérboles e redundâncias despedira-se sem nenhum eufemismo, com uma plena concordância. Restava para os outros adivinhar, ou aceitar com resignação a falta de sentido ou profundidade como fazem os bois e as vacas, e todos os animais que sob o comando de Noé escaparam numa arca do dilúvio e da tempestade. Não havia motivo nenhum. Os desejos e as aflições eram os mesmos de seus semelhantes, que continuavam com os olhos abertos, os seios pulando, a coloração rubra da pele, os sexos em riste e se abrindo, e ignoravam que para se integrar ao mundo era necessário que a morte os aplainasse com sua quietude, a imobilidade do sono. Havia uma criança que não saía da frente. Só implorava e se debatia. Silêncio. O poeta está pensando. Foi o que lhe veio na hora.