Saudades de Audrey Hepburn

“O viveiro dos felinos de um zoológico tem um cheiro desagradável, um ar carregado de sono, macilento com hálito velho e desejos mortos. Em uma comédia com um quê de melancolia, a desgrenhada leoa reclinada em sua jaula parece uma rainha do cinema mudo” Truman Capote

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Lia uma frase numa vitrine, quando de repente notei o outro lado. Quem é ela? Uma pessoa do outro lado tão reconhecível e tão distante. Pensei tê-la visto, talvez, em algum filme, mas logo essa impressão se embaçou, afinal não era possível que o cinema atracasse na minha realidade. Num espasmo, tive a nítida impressão que essa pessoa era eu, e que, apesar de se tratar de uma mulher madura, alguns gestos coincidiam com os meus preferidos, naquela parte da tarde, mais especificamente naquela vitrine, do outro lado.

Quem é ela? Pensei. Uma pessoa do outro lado. Tão reconhecível e tão distante. Refratei qualquer possibilidade de delírio, espécie de fuga da realidade associada à loucura, e não ao consentimento consciente, ativo, determinado. O delírio, naquele caso, poderia ser que a minha imagem refletisse naquela vitrine algo que a alma teimava em constatar, e que o corpo escondia. Sob a forma marrom e aristocrática do corpo, estaria uma alma petulante, que por acidente escolhera aqueles membros para seu refúgio.