A história de Ana

“Foi andando devagar ao longo da praia, passo a passo, reconciliada com o mundo, leve, distraída, olhando o mar.” Fernando Sabino

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Ana me contou uma história. E eu nunca mais me esqueci. Ela trabalhava com farmacovigilância, um braço da farmacologia, e me explicava que não tinha contato direto com os pacientes, mas era responsável por analisar prontuários, ver se a medicação estava correta, verificar interações medicamentosas, que ajustes poderiam ser feitos a fim de otimizar a recuperação do paciente. Neste ambiente burocrático, um dia lhe veio uma epifania. Ana não tinha certeza se era isso mesmo que queria, “é difícil, mas é legal”, dizia, com o ímpeto de um bicho-preguiça. Pensava em seguir a área acadêmica, gostava de mexer com pesquisa, “pegar, fazer, mas se eu for professora pretendo ensinar os alunos a pensarem”. “Mas o meu problema, é que eu gosto de tudo, tudo que eu consigo fazer bem”, encerrava, com um sorriso amarelo no rosto, cansada daquilo tudo.

Ana se sentia perdida, como se a perdição fosse propriamente dita uma parte de sua personalidade, acoplada a ela como uma condenação, algo inescapável. Que nunca seria capaz de tomar o caminho mais fácil, o menos angustiante, que a livrasse das ansiedades e das dúvidas sobre o mundo. Tanto que seu poema preferido era “A estrada não trilhada”, de Robert Frost, segundo ela, a “própria imagem e semelhança”, assim como Deus construíra o homem, ela fora construída sobre aquelas frases. Um dia, porém, apareceu no caminho de Ana um povo miserável, não era um, mas alguns milhões de desdentados, e o mais inacreditável, com enormes sorrisos nas bocas, talvez do tamanho de todas as angústias de Ana. É claro que isso não era comum, Ana trabalhava na parte burocrática, sem contato com os pacientes, mas, por acaso, calhou de encontrar-se com aquele batalhão de bocas desdentadas.