Crítica: novo “Zorra” valoriza texto e atores

“Não pode tudo estar numa linguagem” Ezra Pound

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Hélio Oiticica disse que depois dele não havia mais sentido para a pintura emoldurada nas artes plásticas brasileiras. Paralelo parecido pode ser feito com a obra do poeta francês Baudelaire, apesar de inventor da expressão “modernidade” nas artes, soa difícil conceber uma poesia escrita hoje nos moldes do século XIX. Esses movimentos nem sempre seguem uma ordem crescente, mas cíclica, especialmente na arte e nos esportes. O entretenimento, ao contrário, adota uma postura mais agressiva em relação a “velhas linguagens” em seu processo de descarte e reciclagem. “Zorra Total”, clássico da Rede Globo que durou de 1999 a 2015, já nasceu com essa etiquetação. O desgaste de sua linguagem, no entanto, deve-se não só pelo formato, mas, sobretudo, o texto preguiçoso e escorado em estereótipos.

Essa é a mais sensível modificação imprimida por Marcius Melhem e Maurício Farias. É nítida a semelhança com o outro programa comandado pelos dois, o ótimo “TÁ NO AR: A TV NA TV”. Transparece nas duas atrações a ética dos autores. Ao invés de um humor de ofensas e trocadilhos baratos, pautado em bordões que sublinham preconceitos, o novo “Zorra”, além de extirpar o sobrenome, dá vazão a um conteúdo que leva ao espectador uma informação rebelde, libertária, crítica, com alusões positivas ao relacionamento homossexual, ataques aos poderosos donos de bancos e troça com a pompa bíblica de que se valem alguns para explorar outros milhões. Em outras palavras, o programa não poupa aqueles que “mais mal fizeram à humanidade”, repetindo a pergunta do saudoso Antônio Abujamra. E coloca o humor em seu lugar de destaque, pois o princípio básico está mantido, longe do pedantismo, essas reflexões são propostas, com suavidade, através do riso.