Centenários 2015: Édith Piaf, o canto que aplacou as dores

“Canto o que vejo mas antes
Canto o que a alma deseja.” Hilda Hilst

edith-piaf

Édith Piaf talvez seja uma das primeiras cantoras a encarnar o ideal do mártir. Não é heresia detectar a sua influência no blues de Billie Holiday, na dor-de-cotovelo de Maysa e na música negra de Amy Winehouse. Com uma vida turbulenta e agitada, essas quatro personalidades jamais dissociaram a música de sua existência. Essa certamente é a maior contribuição de Piaf. A entrega total ao ofício proporcionou interpretações e “Hinos de Amor” que não guardam qualquer semelhança com uma atuação técnica ou cerebral. O coração de Piaf está em todas as letras que canta. Por isso até hoje pulsam suas canções.

Natural de Paris, filha de uma cantora de cabaré e um acrobata de rua, a pequenina Édith foi deixada aos supostos cuidados da avó materna, que não se importava com a criança. Mais tarde, levada de volta para a mãe morou em um bordel, onde se amigou das prostitutas que a salvaram de uma cegueira aos 8 anos, com orações no túmulo de Santa Teresinha, de quem Édith se tornou devota por toda a vida. Passou a acompanhar o pai nas ruas de Paris aos 14, onde cantou pela primeira vez em público, mas cansada da exploração e dos maus tratos, também o abandonou. Mãe aos 18, Édith perdeu sua única filha, Marcelle, fruto do relacionamento com o entregador Louis Dupont, que cuidou da criança até a morte, aos 2 anos, vítima de meningite.