Centenários 2015: Orson Welles foi imenso na briga contra a indústria

“[O cinema] É o maior trem elétrico que um menino já teve.” Orson Welles

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O próprio Orson Welles admitia ser conhecido por apenas um sucesso. “Estava na Itália e um italiano me perguntou, em italiano, porque não tinha feito mais nenhum filme depois de ‘Cidadão Kane’”, relata. Embora tenha atuado até 1985 e dirigido até 1974, não é de todo espantoso que a produção de estreia nos cinemas, lançada em 1941, siga como o estigma do diretor. O impacto da produção permanece até hoje: pela técnica apurada, a ousadia na narrativa e a maneira incisiva com que descasca um dos temas mais delicados para a sociedade norte-americana. Baseado na vida do milionário William Randolph Hearst, ‘Cidadão Kane’ custou caro a Welles, sempre incluído na lista dos melhores filmes de todos os tempos, mas também responsável pelo acirramento da briga do diretor com a indústria cinematográfica.

Conhecido pela rebeldia, Orson apareceu pela primeira vez para os holofotes numa transmissão radiofônica, ao simular uma invasão alienígena nos Estados Unidos a partir da leitura dramatizada de “A Guerra dos Mundos”, do escritor britânico H. G. Wells. Evidentemente acrescentou seu humor ao texto com pitadas de ironia. No Brasil, o “cineasta marginal” Rogério Sganzerla não se conformava com a tentativa frustrada de Welles filmar no país o documentário “É Tudo Verdade”, que procurava desmistificar uma imagem folclórica para o exterior, mas que desagradou a ditadura militar instaurada à época e teve o projeto abortado. A partir dessas impossibilidades, da falta e incapacidade brasileira no mundo do cinema, do social e da política, Sganzerla fundou sua obra. A trajetória de Roberto Marinho, dono da Rede Globo, também foi contada e censurada no Brasil, em documentário intitulado “Além do Cidadão Kane”, e que se referia à ligação de Marinho com os órgãos da ditadura militar.