Crítica: musical “Madame Satã” aponta o dedo pra plateia

“O mulato é de fato, e sabe fazer frente
A qualquer valente
Mas não quer saber de fita
Nem com mulher bonita
Sei que ele anda agora aborrecido
Por que vive perseguido” Noel Rosa

Madame-Sata

Toda arte é política, diz a máxima. Mas poucas vezes tão vigorosa quanto em “Madame Satã”. Apresentado pelo “Grupo dos Dez”, o musical com direção de João das Neves e codireção de Rodrigo Jerônimo – que também atua no espetáculo e assina a dramaturgia com Marcos Fábio de Faria – usa a história de João Francisco dos Santos, nome de batismo do protagonista, como ponto de partida para abordar uma série de outras questões. A proximidade com a plateia, quando a ação começa ainda na rua, e a destruição do muro que separa a fantasia da verdade, desmontam a possibilidade de qualquer distanciamento, pois o grupo anuncia de cara estar falando do nosso cotidiano, nosso dia a dia, nossa política mais casual e rasteira, nosso quintal, e aponta o dedo. Tudo é política, toda arte é política, mas esse é o teatro da nossa realidade mais próxima, nossa formação social.

O método escolhido para desenvolver a narrativa é o tempo, estratégia que permite refletir como o passado ainda influencia no nosso presente e também sobre preconceitos que, aparentemente, estariam superados. A peça não se equivoca em provar o contrário. Essa conotação temporal ganha forma na linguagem, que varia, como os intérpretes das personagens, entre o chulo, o incisivo, o poético e o rebuscado. Além de fugir do didatismo cronológico e conferir maior poder de intensidade às cenas, tal mecanismo amplia o poder de síntese dos gestos, capazes de desenvolver aquele arrepio na espinha sobre o qual se irá pensar antes de dormir. O cenário e o figurino de Cícero Miranda e Débora Alves, outras duas fontes de deslumbre, acompanham essas mudanças, assim como os objetos cênicos explorados, em sua simplicidade, com a mesma magia que o especialista manipula o cubo mágico e oferece soluções diversas e inesperadas. Vale dar créditos para a maquiagem e os cabelos cuidadosamente arrumados por Xisto Lopes.