Comédia De Três Ratos

“Muitas vezes vi nos teatros de variedades, antes da minha entrada em cena, um ou outro par de artistas às voltas com os trapézios lá do alto junto ao teto. Eles se arrojavam, balançavam, saltavam, voavam um para os braços do outro, um carregava o outro pelos cabelos presos nos dentes. ‘Isso também é liberdade humana’, eu pensava, ‘movimento soberano’. Ó derrisão da sagrada natureza! Nenhuma construção ficaria em pé diante da gargalhada dos macacos à vista disso.” Franz Kafka

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O Senso comum do escritor
Na noite do acontecido uma coisa azul embargou a imagem. Era coisa posta, nunca existente até aquela noite. Ao menos o que vizinhos relataram. Na noite do acontecido uma coisa verde embargou a paisagem. Era coisa velha, muito assimilada em livros de história. Ao menos o que vizinhos relataram. Eu, dono da casa, não tive a coragem de ir revelá-la. O enfrentamento, para a pouca idade, é coisa que excita, mas para um velho, apenas atormenta, asfixia e mata. Na noite do acontecido uma coisa verde espalhou as margens. E então pude ver dentro do vermelho o azul da noite. Mas eu uma criança velha o dono da casa nunca tive coragem de revelar a imagem, a paisagem, ou mesmo o livro de história, ou mesmo o que os vizinhos falaram. Na noite do acontecido. Na noite do acontecido. Uma coisa. Azul. Embargou. Espalhou. Uma. Verde. Margem. Minha vida é um livro aberto, mas algumas páginas estão queimadas.