Crítica: peça “No Pirex”, do grupo Armatrux, equilibra a loucura com categoria

“ – Porque eu não pude encontrar o alimento que me agrada. Se eu o tivesse encontrado, pode acreditar, não teria feito nenhum alarde e me empanturrado como você e todo mundo.” Franz Kafka

No-Pirex

O texto é tão bem construído através dos gestos, ruídos e arroubos das personagens que não se ouve sequer uma frase ao longo dos 60 minutos de espetáculo. Entenda-se por personagens também os objetos, figurino, cenário, que participam e interferem na peça “No Pirex”, do grupo “Armatrux”, com a mesma precisão e eloquência dos atores Cristiano Araújo, Eduardo Machado, Paula Manata, Raquel Pedras e Tina Dias, todos com um desempenho tão sublime que é capaz de enlouquecer a plateia com toda a insanidade posta em cena e fazê-la crer no absurdo do mundo: uma mera fantasia de traços góticos.

Os recursos de humor físico, sempre explorados em favor de um pensamento ou ideia reflexiva permitem ao grupo arrancar o riso fácil do público sem abrir mão da consciência crítica ou partir para a esculhambação pura e simples. A força de um cuspe, uma facada ou qualquer outra agressão mais grosseira e violenta é capturada em seu melhor ângulo, cuja amplidão e alcance não se perdem no jogo que é feito entre o banal e o extraordinário, o comum e o surpreendente, afinal um retrato da vida sem almejar a pretensa do ininteligível e nunca beirando a rasteira do golpe baixo e omisso. É um malabarismo.