Gonzaguinha: Grito de alerta e esperança

“Sabendo que o importante não é o aplauso nem a vaia, mas o silêncio que fica depois da música.” Gonzaguinha

Gonzaguinha

Por trás da expressão carrancuda, do semblante de poucos amigos e da barba que escondia-lhe a chance de um sorriso mais largo, havia um coração pronto a explodir do menino que desceu o São Carlos para colocar o dedo na ferida dos problemas sociais e afetivos de mulheres e homens. Filho do Rei do Baião, da dançarina Odaléia e da música brasileira que acolheu com tamanha propriedade, a cara de Gonzaguinha era a de um Brasil que não se entrega e não deixa de apontar as mazelas que atingem as suas pessoas. Com a camisa aberta e o peito à mostra ele escreveu através de suas músicas um retrato sensível, por vezes raivoso, outras vezes irônico, de sentimentos universais e em decadência. Era um grito de alerta, e ao mesmo tempo, de esperança.

Com a perna no mundo (samba, 1979) – Gonzaguinha
Filho de vários pais e de várias mães, Gonzaguinha teve história parecida com a de muitos brasileiros. Nasceu no ventre da cantora e dançarina da noite Odaléia e foi registrado pelo expoente maior da música nordestina levando seu nome. Com a morte da mãe quando ele tinha dois anos, vítima de uma tuberculose, Luiz Gonzaga do Nascimento Júnior foi entregue aos carinhos de dona Dina e seu Xavier, para que o pai pudesse cumprir sua vida de viajante. Luizinho, como passou a ser chamado no morro de São Carlos, no Rio de Janeiro, logo aprendeu a tocar violão com seu padrinho, a sacar as malícias das ruas, e a ter vontade de conhecer outras bandas. Essa epopéia comum a tantos brasileiros, Gonzaguinha cantou “Com a perna no mundo”, de 1979, em que deixava um caloroso recado à madrinha querida: “Diz lá pra Dina que eu volto, que seu guri não fugiu, só quis saber como é, qual é, perna no mundo, sumiu…”