Crítica: Peça “Discurso do Coração Infartado”, com Silvana Stein, reflete sobre inadequação

“escarneceu da velha cifra na tabela e falou de embuste, essa foi, à sua maneira, a mais estúpida mentira que a indiferença e a maldade inata puderam inventar, já que não era o artista da fome quem cometia a fraude – ele trabalhava honestamente – mas sim o mundo que o fraudava dos seus méritos.” Franz Kafka

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“Discurso do Coração Infartado”, monólogo protagonizado pela atriz gaúcha – mas radicada há doze anos em Belo Horizonte – Silvana Stein, que também dirige o espetáculo ao lado de Ricardo Alves Júnior; atende a uma demanda essencial nos tempos modernos: apara os excessos e oferece o mínimo de distrações sonoras ou visuais ao espectador, economiza nas tintas (todo o cenário consente ao preto e branco, assim como o protagonista) e investe em falas rápidas e compactas, sempre musicais, advindas da boca ou de qualquer outra estrutura, por exemplo: barulho da geladeira, da vizinha, televisão ou cachorro.

No anseio de um frustrado e envelhecido ator cômico cuja aspiração maior é interpretar os respeitosos papéis dramáticos escritos pela pena do inglês William Shakespeare, em especial “Hamlet”, o jogo de inadequação começa pelo real e atravessa o que é obscuro, ou fantasioso, a atingir o absurdo para, como numa prosódia de Kafka, revelar o besta e ralo cotidiano. Ou seja, Silvana, uma jovem mulher viçosa saboreia os martírios de um corpo deteriorado pelo tempo à espera da morte. Mas esta é somente a casca, afinal esconde uma alma carregada de sonhos e a habitual conseqüência na espécie humana: desilusão.