Ney Matogrosso No Show Atento Aos Sinais

“Uma cega labareda me guia
para onde a poesia em pane me chamusca

Vou onde poesia e fogo se amalgamam.
Sou volátil, diáfano, evasivo.

Escapo que nem dorso de golfinho
que deixa a mão humana abanando” Wally Salomão

Ney-Matogrosso-Atento-Sinais

A rua deveria dar passagem em direção a um suntuoso prédio localizado na parte mais pobre do vilarejo. A razão de ter-se erguido ali era de conhecimento público, inclusive imprensa e polícia, mas forças políticas impediam a divulgação do caso e consequentes penitências aos envolvidos. Agora, no entanto, um incêndio alastrava-se, tendo se iniciado na parte mais elevada da construção, e já se estendia até as bases. Centenas de microfones, câmeras, fios e aparelhos eletrônicos variados, de celulares a laptop´s, aglomeravam-se até os limites da barricada ali improvisada como impedimento à aproximação do fogo. Do outro lado bombeiros esforçavam-se para pôr fim à farra das chamas e decretar o império da fumaça sobre a outrora prova de soberania da inteligência e eficácia humana pautada na engenheira e conhecimentos arquitetônicos, estes últimos despidos de qualquer senso do bom gosto.

Roendo as unhas, o prefeito enfim aceitou o convite dos ávidos entrevistadores, submetendo-se a prestar esclarecimentos à ensandecida população, a se expressar de maneira parecida a animais confrontados em seu território. Tal comportamento, aliás, muitíssimo raro e particular naquela gente, acendeu ainda mais a dúvida sobre as causas do incêndio. Uma gente a princípio pacata, da qual jamais se teve notícia sobre o reclame de qualquer situação, sobretudo quando contemplada com quilo de arroz e saco de feijão, promessa cumprida e feita prioritariamente em épocas de eleição. Todo o mistério findaria com a palavra do excelentíssimo e magnânimo, como se lhe referiam os assessores, mandatário máximo da cidade; o prefeito disse: “É uma vida louca vida esta, pois se num dia tudo transcorre às mil maravilhas, noutro assombra-nos a catástrofe!”.