Artemisia Gentileschi e a Paixão do Corpo

“O gozo fecunda. A tristeza dá a luz.” William Blake

Artemisia-Gentileschi

O sangue, sobre a parte interna da coxa, descia em jorros. Por entre as pernas, de onde saíra, tremia o órgão sob os pelos e a pele lisa, pálida, virgem, os músculos, epiléticos e convulsivos, regurgitavam líquidas excreções. As mãos atadas, noutro momento, determinavam a arrancar uma nítida confissão. Novamente filamentos de coloração vermelha desciam pela parte interna dos braços, ansiando abrigo, todos os membros a suarem frio, em jorros. Artemisia Gentileschi conhecia as cores, as feridas e os gozos através do corpo.

Deitada na praia esticou-se inteira, a fim de compreender a real extensão de sua fatia no mundo. Não satisfeita, ao perceber a limitação imposta por vestimentas, retirou cuidadosamente, descendo por cima dos ombros, a parte superior do vestido, para em seguida, num safanão, jogá-lo inteirinho longe, pronto para ser lambido pela espuma branca do mar. Arriou a derradeira peça íntima, e, no momento, essencialmente coberta pelo sol, pôde-se refletir com mais intensidade. A areia tocou-lhe as costas como nunca antes.