Literatura: Dia dos mortos

“Perdeste o melhor amigo,
não tens sequer um cão
… mas e o humour?” Carlos Drummond de Andrade

Dia dos mortos

Vou para casa ouvindo Maria Callas. Volto do seu enterro. Fagulhas pinçam minha perna esquerda, costas. Cálida. Cessa. Vagarosa: compreendendo a ânsia esquiva-se do sentimento. Monótono. O dia que salvei meu cachorro da piscina. O sinal da porta quando minha tia morreu.

Não costumava ir até a parte de fora da casa, onde ficava a piscina entregue aos mosquitos e outros insetos a almejarem a água. Sem pressentir a natureza terrena este ser o fim de seu corpo íngreme. Arvoram-se em vôos dos quais serão incapazes de completá-los. Ao intento, à manobra que nem se sabe julgam arriscada. Não é pelo tique nervoso das antenas ou das minúsculas asas que se conclui a indecisão de um movimento destes. Mas eles o escolhem por pura culpa de inteligência incauta. Cega de beleza, de precisão, de identidade. Esses bichos sem nome, nem mágoa.