Análise: Chuck Berry levou para sua música o culto à personalidade

“Por minha missão mais tarde – promessa de iluminar a humanidade – isto é, soltar partículas – (louco como você) – (sanidade um truque convencional)” Allen Ginsberg

Chuck Berry foi um dos pioneiros do rock

O pai do rock nacional afirmava em 1989 que nunca vira “Beethoven fazer aquilo que Chuck Berry faz”. A referência era explícita por parte de Raul Seixas (em parceria com Marcelo Nova) àquele considerado por muitos como “pai do rock mundial”, embora nem um, nem o outro, tenha assimilado o epíteto com orgulho. Berry era a alma do rock’n’roll, o que facilmente se percebia nesse sucesso de 1956 que Raul usava de fundo para sua canção em reverência ao estilo. Além do deboche, a rebeldia juvenil – que não segurava palavras para dizer que o pai da música clássica devia rolar no túmulo ao ouvir as guitarras e aventuras da geração do Pós-Guerra americano – Berry introduziu uma maneira bastante própria de se portar no palco e, consequentemente, interpretar suas músicas, o que, é bem provável, contribuiu para o culto à sua personalidade marcada por exotismos e confusões de toda ordem ética e legal.

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Crítica: Peça “Cachorro enterrado vivo” contextualiza animalidades

“Palavras de fervor não peneiradas, de início apenas para adular
tal qual o olhar de um animal tragando luz
ou correr para buracos de rato” Ezra Pound

Leonardo Fernandes na peça Cachorro enterrado vivo

Baseada no mórbido acontecimento real que dá nome à peça “Cachorro enterrado vivo” ultrapassa a história em si para refletir sobre a existência. Ao superar essa primeira camada a soberba atuação de Leonardo Fernandes é quase que suficiente para dar conta do amplo espectro que a montagem aborda, não estivesse ele ainda auxiliado por preciosas escolhas de cenário, iluminação, figurino e trilha sonora, aspectos que elevam a tensão necessária. A decisão de incluir ‘suspiros’ cômicos para o espetáculo também surte o efeito não apenas de balancear o ritmo da narrativa como de, efetivamente, contribuir para a reflexão proposta: é um humor sempre mórbido, sádico, que nos leva a pensar sobre o que estamos rindo, afinal por mais que as bochechas se alarguem permanece o ranger de dentes ante a mandíbula tensionada, a garganta seca e amarga. Nada aparece por acaso no texto de Daniela Pereira de Carvalho, capaz de nos reservar surpresas em sua estrutura hábil, elástica.

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Entrevista: Jhê Delacroix, entre a irreverência e a preocupação histórica

“Tomo para mim uma tarefa inteira:
A de guardar um tempo, o todo que recebe
E livrá-lo depois de um jugo permanente.
Outros te guardarão. Não eu que só pretendo
Libertar na alegria o coração e a mente.” Hilda Hilst

Obra da artista plástica Jhê Delacroix

Ela imitava Sandy e Simony e ouvia Daniela Mercury, não necessariamente ao mesmo tempo. Entre as faxinas da mãe “escutava uma gama imensa de música de um determinado estilo”, sucesso na época, como a dupla sertaneja Zezé di Camargo & Luciano. “Não nasci Clarice Lispector por pouco”, confessa ela que, ao ser questionada sobre o nome artístico, responde como a autora de “A Maçã no Escuro”. “É segredo, só as crianças sabem”, ri-se. Assim Jhê Delacroix, natural de Niterói, no interior do Rio de Janeiro, e residente em Belo Horizonte há quatro anos mantém o mistério e não entrega pistas de parentesco com o pintor francês famoso por telas políticas, de que é o maior exemplo “A Liberdade Guiando o Povo”. Mas deixa claro que com seus 28 anos e alma lavada sem ter onde secar – para parafrasear Cazuza – navega entre a irreverência e a preocupação histórica. De volta à meninice Jhê recorda seus primeiros tempos. “Sempre amei escutar música e como também tinha essa aptidão imitava os artistas pros meninos mais velhos pra poder enturmar”.

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Entrevista: Nasce o Sol Poente de Maíra Baldaia

“Rompe a amargura até transmutar em ternura
Só a arte salva de nossos monstros, a arte é cura,
Veneno e antídoto, só ela, única, perdura em nosso peito” Maíra Baldaia

Maíra Baldaia e seu sol poente

“Minhas principais influências estão nas ruas, nas mulheres do meu dia a dia, na resistência nossa de cada dia, na ancestralidade que toca o meu corpo e forma minha identidade, nos amores e nos aprendizados, na natureza e nos movimentos que ela nos propõe, nas paisagens e passagens de tempo, nas cores, na liberdade e, principalmente, nas estradas e nos novos olhares que elas nos despertam”, é com estas palavras que Maíra Baldaia se apresenta, e não há ninguém melhor do que ela para tentar o entendimento de si própria, sem pretender, com isto, a limitação. O que Maíra procura é liberdade. Mineira de Itabira – aonde, por acaso, também nasceu Carlos Drummond de Andrade – a artista já levou seu canto e sua poesia para Portugal, Espanha, Alemanha e Estados Unidos. Mas que com a aparência não se engane, Maíra, que também é atriz, está longe de deslumbrar-se com colonizadores. Suas raízes estão fincadas na África e no Brasil, que, com reverência, ela reinventa nas músicas.

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Livro sobre arquiteto mineiro revela obra poética e rigorosa

“arte que te abriga arte que te habita
arte que te falta arte que te imita
arte que te modela arte que te medita
arte que te mora arte que te mura
arte que te todo arte que te parte
arte que te torto ARTE QUE TE TURA” Paulo Leminski

Humberto Serpa aliou poesia a precisão

Embora reconhecido entre seus pares, Humberto Serpa permanece nome desconhecido, mesmo quando se fala de arquitetura, entre a grande maioria do público. É essa lacuna que Nara Grossi pretende preencher com o lançamento do livro “Humberto Serpa: arquitetura”, ocorrido na segunda-feira do dia 13 de fevereiro, na Academia Mineira de Letras. O material toma como base a dissertação de mestrado da autora, graduada em arquitetura pela UFMG e mestre pela faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP.

Nascido em Belo Horizonte em 1943, Serpa é reconhecido por ter influenciado decisivamente a arquitetura mineira do século 20. São dele projetos como o edifício do Banco de Desenvolvimento de Minas Gerais (BDMG), projetado em 1969, quando Humberto contava 26 anos, e a residência do proprietário da livraria Van Damme, no bairro Mangabeiras. “Para Humberto, a arquitetura-arte alia rigor e persistência, onde a busca exaustiva da solução ideal corresponde à alma do objeto idealizado”, afiança Nara, que não deixa de destacar a atuação de Serpa como professor e artista plástico.

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