Alceu Valença: “A filosofia transformou a minha maneira de ver o mundo“

“Quanto mais desconfiança, mais filosofia.” Nietzsche

Um trauma marcou as primeiras relações de Alceu Valença, 73, com as artes. Nascido em São Bento do Una, no agreste meridional de Pernambuco, o músico viveu na cidade até os 7 anos, antes de se mudar, com a família, para a capital Recife. No pequeno município de 5 mil habitantes, havia dois cinemas, três grupos de teatro e uma banda de música. “Era uma cidade amiga da arte”, descreve. “E havia também a cultura popular dos cantadores, poetas, cordelistas, violeiros, coquistas e improvisadores; dos cegos cantores de feira e dos aboiadores que tangiam o gado com sua cantigas de forte influência mourisca. Tudo isso faz parte da minha formação primal, são os mesmos elementos que Luiz Gonzaga utilizou para formatar, por exemplo, o forró e o baião”, conta.

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“É um grito de liberdade contra tudo que oprime”, diz diretor de “Bixa Travesty”

“Não respondo de medo. De medo da pressa dos inteligentes que arrematam a frase antes que ela acabe. E porque não tem resposta. Qual o segredo por trás disso tudo? Como te digo que desejo sim meu cônjuge, meu par, que não proclamo mas meu corpo pêndulo nessa direção? Que meu par é quem quer saber e dá, a bênção, as palavras: em nome do pai, e da filha, qual é o endereço? o interesse? o alvo do raio? a vida secreta do sr. Morse? Alguém viu – o sossego do urso? Alguém ficou fraco diante de sua mãe? Alguém disse que é para você que escrevo, hipócrita, fã, cônjuge craque, de raça, travestindo a minha pele, enquanto gozas?” Ana Cristina Cesar

Uma luva metálica de unhas pontiagudas usada por Ney Matogrosso na época do grupo Secos & Molhados é apresentada no documentário “Bixa Travesty” como um amuleto dado pela amiga e parceira Jup do Bairro para Linn da Quebrada, 29. A revelação do encontro entre ídolo e fã, no entanto, só acontece ao final do longa-metragem. “Ser recebida pelo Ney com tanto carinho e generosidade representa muito. A importância se dá, justamente, por ser um encontro de gerações, entre o que eu venho propondo na música agora e o que o Ney continua realizando com o seu corpo, sua força e sua coragem”, exalta Linn.

Focado na trajetória de Linn, que também participou da roteirização, “Bixa Travesty” estreia em BH, no Cine Belas Artes, no dia 28 de novembro. Mas o caminho, até aqui, não foi fácil. Lançado no Festival de Berlim no ano passado, ele recebeu o prêmio Teddy de melhor documentário. No Festival de Brasília, foi novamente premiado, dessa vez na categoria melhor filme de público, concedido pela Petrobras para fomentar a distribuição. No entanto, com a eleição de Jair Bolsonaro e a troca de governo, a premiação foi suspensa, como conta Kiko Goifman, que dirigiu o filme ao lado de Claudia Priscilla.

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Maria Rita: “Até onde a gente vai apanhar enquanto povo?”

“mergulha no sonho/ anterior às artes,
quando a forma hesita/ em consubstanciar-se.
Canta os elementos/ em busca de forma.
Entretanto a vida/ elege semblante.” Carlos Drummond de Andrade

Maria Rita, 42, não força a barra quando diz que passou “muito mal de emoção”. A expressão é literal. “Me escondi no banheiro, porque achei que fosse desmaiar”, conta. O apuro aconteceu na cerimônia de entrega do Prêmio da União Brasileira dos Compositores (UBC) para Milton Nascimento, laureado pelo conjunto da obra na sede da associação, no Rio de Janeiro, em outubro. Durante a homenagem, Maria Rita cantou “Morro Velho”, lançada no primeiro álbum de Bituca, em 1967. “Essas composições mexem muito comigo. Sou suspeita para falar do Clube da Esquina, tenho um envolvimento próximo, e essa atemporalidade das canções me choca até hoje. É arrebatador”, enaltece. Há cerca de sete anos, a intérprete gravou, com Seu Jorge, uma versão para “Vento de Maio” (Telo e Márcio Borges), eternizada no canto de Elis Regina. O dueto chegou à internet em abril.

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10 criadores de vanguarda da música brasileira

“Mínimo templo
para um deus pequeno,
aqui vos guarda,
em vez da dor que peno,
meu extremo anjo de vanguarda.” Paulo Leminski

O júri formado por Nara Leão, Décio Pignatari, Júlio Medaglia, Roberto Freire e Rogério Duprat elegeu “Cabeça” como a vencedora do Festival Internacional da Canção de 1972, mas o compositor Walter Franco jamais recebeu o prêmio. No intervalo da apresentação, as vaias estrondosas da plateia e a presença de militares do regime ditatorial resultaram na remoção do júri, e o primeiro lugar acabou com “Fio Maravilha”, de Jorge Benjor, interpretada por Maria Alcina. O episódio é elucidativo do tipo de música que Walter Franco produziu. Morto no último dia 24 de outubro, ele renegou a vida inteira o rótulo de maldito, colado em artistas inconformados que encheram a música brasileira com trabalhos experimentais e de vanguarda.

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10 mineiros que poderiam ter nascido no Rio

“O mar de Minas não é no mar.
O mar de Minas é no céu
pro mundo olhar pra cima e navegar
sem nunca ter um porto onde chegar…” Domínio Público

Eles são mineiros, mas dedicaram filmes, livros e canções para aquela que é considerada por muitos como a “Cidade Maravilhosa”. Vocacionados para a criação, músicos, atores, escritores e cineastas partiram de todos os cantos das Minas Gerais em busca de uma oportunidade para exercer o seu ofício e acabaram se estabelecendo no Rio de Janeiro. Hoje em dia, não é incomum que eles carreguem o sotaque praiano e tragam a saudade das montanhas.

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